A cartografia oficial, feita para o Estado ou para a academia nos traz uma visão de mundo que parece ser universal e portanto, única. Ela cartografa apenas elementos naturais, sem considerar os agentes sociais presentes nesses espaços. Mas esse tipo de cartografia apresenta uma defasagem em relação à realidade; ela não dá conta da vida de comunidades que estão á margem do poder (povos indígenas, quilombolas, comunidades rurais e das periferias das cidades) e segundo FONSECA (2013), também não consegue representar a malha relacional do nosso mundo globalizado.
A cartografia social vai além do simples mapeamento de espaços (Cf.SANTOS 2016), é um processo de construção coletiva (aproximando pesquisadores e agentes sociais). Ela mapeia espaços invisíveis para a sociedade e traz á tona problemas que vêm sendo negligenciados pelos grupos dominantes, que só ganham visibilidade a partir do seu mapeamento. A cartografia social não deve se limitar a meros critérios geográficos, seus mapas representam produtos de relações sociais (segundo Alfredo W.Berno).
Além disso, a cartografia social pode trazer uma grande contribuição ao processo pedagógico, pois o conhecimento produzido pode ser problematizado em sala de aula. O processo de construção da cartografia social precisa do engajamento das ´pessoas da comunidade, que conhecem a sua realidade e que vão compartilhar as suas memórias (construindo uma memória coletiva), por isso, os discentes por fazerem parte da comunidade, podem exercer o seu protagonismo, ao mesmo tempo que compartilham do conhecimento das pessoas mais antigas do lugar, e se apropriam dos conhecimentos da metodologia de elaboração de mapas situacionais.
Assim, os estudantes assumem o papel de seres pensantes e reflexivos (sobre a sua própria realidade e sobre a realidade de seus grupos. A cartografia, que na sua versão oficial, chega como um produto para ser usado, e que trata de territórios dos grupos sociais dominantes, enquanto uma nova cartografia que tem como foco o social, vem como uma experiência de mapeamento de uma realidade invisibilizada pelas relações de poder. Trata de uma territorialidade que os espaços dominantes não registraram, muitas vezes porque são espaços de conflitos reais ou espaços nos quais o poder econômico tem interesses (em algumas situações ,ainda não declarados). Assim, a cartografia social possibilita localizar os povos e suas comunidades tradicionais no mapa, bem como, a identificação de seus territórios e da história social de povos e comunidades tradicionais, consideradas sem história e portanto, sem lugar nos mapas oficiais.
REFERÊNCIAS
FONSECA.Fernanda Padovesi. OLIVA. Jaime. Os desenhos da Cartografia num Mundo em Transformação. São Paulo:Melhoramentos,2013.
SANTOS.Dorival. Cartografia Social. InterEspaço. Grajaú-MA,v.2.n.6, mai/ago.2016.
SANTOS. Milton. O Espaço do Cidadão.7. ed. São Paulo: EDUSP,2012.